quinta-feira, 9 de junho de 2016

A M Ó S

O   L I V R O    D E    A M Ó S


O PROFETA AMÓS

              O Profeta Amós era de Tecoa, aldeia situada a cerca de 20 Km ao sul de Jerusalém. Era um simples leigo, não era filho de profeta, e nem sacerdote, nem membro da escola de profetas. Amós era boeiro, ou seja, boiadeiro e colhedor de sicômoros, mas um homem instruído, pois seu livro revela sua capacidade literária. Era um profeta fazendeiro e também vendedor de lã.
              Encontramos em Amós um dos muitos exemplos em que Deus chama um homem ocupado para fazer a sua obra. (1.1). Deus o chamou de laço em mão e mandou que enlaçasse seu povo transviado.
              Amós era contemporâneo do Profeta Jonas e possivelmente do Profeta Elias e quando sua obra estava chegando ao fim surgiram Isaías e Miquéia. Estes profetas quando meninos devem te ouvido Amós pregar para o povo em uma de suas viagens.
              Quando Amós profetizou, Uzias ocupava o trono de Judá e Jeroboão II era rei de Israel. Foi uma época de grande prosperidade, época em que as fronteiras do reino de Davi foram reconquistadas e circulava dinheiro em abundancia e os exércitos eram vitoriosos. Amós e Oséias profetizaram para Israel, o reino do Norte e Isaías e Miquéias para Judá, o reino do Sul. Este humilde pregador do campo deixou seu lar em Judá e viajou 35 Km até Betel, no reino do Norte, para pregar a Israel.

A GUERRA CONTRA O PECADO

              Amós seria o mais impopular dos homens, “o proclamador de calamidades” que teria que pregar contra o pecado de Jeroboão II, o qual levou o povo de Israel à idolatria. Amós , boiadeiro rude, tinha em sua pessoa algo dessa franqueza que revigorara, era direto e não deixava de dizer nem mesmo ao Rei Jeroboão II, o que devia fazer. Deus queria alguém que levasse sua mensagem com intrepidez, e Amós não falhou. Israel precisava de um profeta que tirasse dos olhos as escamas, afim de que pudessem ver as inevitáveis conseqüências de sua idolatria.
              Sempre que se pergunta por que um império caiu, a resposta é “pecado”. O segredo da ruína de um homem é o pecado.
Por que Deus mandou Amós para Betel. Pois sem dúvida Jerusalém precisava de seu ministério. Deus, porém, queria que o reino de Israel ouvisse uma vigorosa palavra de advertência e Betel era a capital religiosa do Norte e ali a idolatria predominava.       Tinham instituído o culto devido ao Senhor, pela adoração do bezerro e o povo não sentia necessidade de pregação. I Reis 12.25-33.
             O Profeta Amós começou a pregar em Betel nos dias de festas sagradas e proclamou o juízo de Deus a seis nações vizinhas: Damasco (Síria), Gaza (Felístia), Tiro (Fenícia, Edon, Amom e Moabe. Depois, chega-se para mais perto e pronuncia juízo contra Judá (2.4) e contra o próprio Israel (2.6), e finalmente contra a nação inteira (3.12).






ADVERTENCIAS CONTRA AS NAÇÕES

              Amós denunciou o pecado de Israel de um modo mais vivido do que o Profeta Oséias, fala-lhe do seu viver ocioso, descuidado e luxuoso; da opressão contra os pobres; da mentira e da fraude e pior que tudo, a hipocrisia no culto, e Deus se entristece, pois, o povo não dava ouvidos as Suas advertências. “Contudo não vos convertestes a mim, disse o Senhor”. (4.6). “Buscai-me e vivei” (5.4).
              O livro de Amós começa com juízo contra as nações que rodeiam Israel:
·       Damasco ameaçada por ter invadido Israel (Amós 1.3;  II Reis 10.32-33)
·       Gaza e Tiro por conspirarem com Edom na invasão de Judá (Amós 1.6,9 ; II Cron.21.16-17, 28.18)
·       Edom por continuar a hostilidade (Amós 1.11 ; Obadias 10.12)
·       Amom por atacar Gileade (Amós 1.13)
·       Moabe por práticas pagãs (Amós 2.1 ; II Reis 3.27)
·       Judá por se esquecer da Lei de Deus (Amós 2.4 ; II Cron. 36.19 ; II Reis 25.9)
·       Israel por sua injustiça (Amós 2.6 ; II Reis 17.17-23)
Por mais que as nações do mundo posam ser poderosas, não podem suportar os juízos de Deus. Deus estabelece reinos e os derruba.

JUÍZO CONTRA ISRAEL

             Amós diz a Israel que eles são gananciosos, injustos, impuros e profanos, (2.6-12) e que se defendem e desculpam apoiando-se no fato de serem povo escolhido de Deus (3.2). Vangloriavam-se de serem a nação escolhida e nada de mal lhes podia acontecer. Amós lembra a eles que isso torna mais grave o seu pecado. (4.1 ; 5.4-6 , 5.21).
             Somente no exílio Israel se libertou desse pecado, e o castigo que recaiu sobre Israel foi a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (Amós 2.5).
             Após Amós ter profetizado a Jeroboão por meio do sacerdote Amazias de Betel, dizendo que o rei morreria à espada, foi repreendido e expulso de Israel, e quando descobriu que Israel não ia ouvi-lo, regressou a Judá e pôs os seus escritos em forma de livro, de sorte que todos pudessem ler e compreender.


E S T U D A N D O    O    L I V R O

O livro de Amós pertence ao Antigo testamento da Bíblia, vem depois do Livro de Joel e antes do Livro de Obadias. A profecia deste livro da Bíblia hebraica foi dirigida primariamente ao reino setentrional de Israel. Pelo que parece, foi primeiro proferida oralmente, durante os reinados de Jeroboão II e de Uzias, respectivamente reis de Israel e Judá, cujos reinados coincidiram entre 829 e cerca de 804 a.C. (Am 1:1). Por volta de 804 a.C. foi assentada por escrito, presumivelmente após o profeta voltar a Judá.

Estudo Sobre o Livro
A canonicidade deste livro, ou sua reivindicação de um legítimo lugar na Bíblia, jamais foi questionada e sempre defendida. Desde os tempos primitivos, foi aceito pelos judeus, e aparece nos mais antigos catálogos cristãos. Justino, o Mártir, do século II, citou Amós em seu Dialogue With Trypho, a Jew (Diálogo com Trífon, um Judeu, cap. XXII). O próprio livro se acha em completo acordo com o restante da Bíblia, conforme indicado pelas muitas referências do escritor à história bíblica e às leis de Moisés. (Am 1:11; 2:8-10; 4:11; 5:22, 25; 8:5). Os cristãos do primeiro século aceitavam os escritos de Amós como Escritura inspirada. Por exemplo, o mártir Estevão (At 7:42, 43; Am 5:25-27), e Tiago, irmão de Jesus (At 15:13-19; Am 9:11, 12), mencionaram o cumprimento de algumas das profecias.
Outros eventos históricos atestam, de forma similar, a veracidade do profeta. É fato histórico que todas as nações condenadas por Amós foram, no devido tempo, devoradas pelo fogo da destruição. A própria grandemente fortificada cidade de Samaria foi sitiada e capturada em 740 a.C., e o exército assírio levou os habitantes "para o exílio além de Damasco", conforme predito por Amós. (Am 5:27; 2Rs 17:5, 6) Judá, ao sul, recebeu igualmente a devida punição quando foi destruída em 607 a.C. (Am 2:5) E, fiel à palavra de Jeová mediante Amós, descendentes cativos tanto de Israel como de Judá voltaram em 537 a.C. para reconstruir sua terra natal. — Am 9:14; Esd 3:1.

Plano da Obra
Depois do título (1:1) e uma breve introdução (1:2), inicia-se uma série de oráculos (1:3-2:16) contra as nações vizinhas que é feito em várias direções seguindo uma simetria de pontos opostos: Damasco, a nordeste; Gaza, no poente; Tiro, a noroeste; Edom, a sudeste e Amon e Moab no nascente, por suas crueldades entre si e até mesmo, o mais extenso deles, contra Israel. Há condenações contra Judá e Israel, por sua idolatria.
Os capítulos de 3 a 6 condenam Israel por sua hipocrisia (porque apesar de terem cometido idolatria, ainda realizavam as festas do Pentateuco) e injustiça social, merecendo destaque o discurso contra a impenitência de Israel (4:6-13), as palavras contra o culto de Betel (4:4-5; 5:4-5.21-27), as denúncias contra a injustiça social (3:9-11; 4:1-3), contra o orgulho e as falsas seguranças (3:1-22; 5:18-20; 6:1-7.13-14).
São sete os crimes de Israel:
"vendem o justo (tsaddîq) por prata": desprezo ao devedor
"o indigente ('ebyôn) por um par de sandálias": escravização por dívidas ridículas
"esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos (dallîm)": humilhação/opressão dos pobres
"tornam torto o caminho dos pobres ('anawim)": desprezo pelos humildes
"um homem e seu filho vão à mesma jovem": opressão dos fracos (das empregadas/escravas)
"se estendem sobre vestes penhoradas, ao lado de qualquer altar": falta de misericórdia nos empréstimos
"bebem vinho daqueles que estão sujeitos a multas, na casa de seu deus": mau uso dos impostos (ou multas).
Amós, com os termos tsaddîq (justo), 'ebyôn (indigente), dal (fraco) e 'anaw (pobre), designa as principais vítimas da opressão na sua época. Sob estes termos Amós aponta o pequeno camponês, pobre, com o mínimo para sobreviver e que corre sério risco de perder casa, terra e liberdade com a política expansionista de Jeroboão II. É em sua defesa que Amós vai profetizar.
Está em 4:1, "ouvi esta palavra vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis os pobres, que quebrantais os necessitados…". O apelo por justiça é o tema mais conhecido deste livro, porque evidencia a condenação de Deus aos que ficaram ricos através da corrupção.
No capítulo 7, o autor nos informa que foi chamado à corte do rei Jeroboão II para explicar suas profecias, que eram desfavoráveis ao rei. Ele acaba não sendo punido e acaba advertindo o rei.
O livro termina com uma mensagem de que, apesar de Deus castigar a Israel, Deus irá restaurar a nação, quando ela se voltar a Deus.

Conteúdo do Livro
Aproximadamente no 760 AC, Amós (nome que em hebraico significa "levar" e que parece ser uma forma abreviada da expressão Amosiá, que significa Deus levou) que era um vaqueiro e cultivador de sicômoros (7:14), um fruto comestível que se parece com o figo, cujas frutas devem ser arranhadas com a unha ou com um objeto de metal antes de amadurecerem para que fiquem doces, em Técua (Teqoa), nos limites do deserto de Judá (1:1), perto de Bet-Lehem, era povoado situado a menos de 20 Km ao sul de Jerusalém, caiu na arapuca de Deus (3:5), deixou sua vida tranquila e foi anunciar e denunciar no Reino de Israel Setentrional, durante o reinado de Jeroboão II (1:1) no Reino de Israel Setentrional (787-747 AC) e de Ozias em Judá (781-740 AC). Um leão começava a rugir (3:8): era Javé que colocava em polvorosa todo um regime de injustiças.
Menos de um século antes da pregação de Amós, tinha acontecido no Reino de Israel Setentrional um golpe militar, promovido por um antepassado de Jeroboão II, o general Jeú, que, ao romper os acordos com os vizinhos, jogara o país em profunda dependência, especialmente da grande rival Damasco, governada por arameus. O Reino de Israel Setentrional levou muito tempo para recuperar a sua autonomia. E isto começou com o rei Joás, pai de Jeroboão II, que governou entre 797 e 782 AC.
O reinado de Jeroboão II (783 - 743 AC), era uma época aparentemente gloriosa para o Reino de Israel Setentrional que ampliava seus domínios (2 Rs 14:25) (6:1-3.13-14), certamente tomou Damasco e submeteu a Síria ao seu poder, e enriquecia, entretanto, o sistema administrativo adotado por Jeroboão II provocou a concentração da renda nas mãos de poucos privilegiados com o consequente empobrecimento da maioria da população, os pequenos agricultores ficavam tão endividados que chegavam à escravidão para pagar suas dívidas. Os tribunais, que teoricamente deveriam defendê-los da exploração dos mais poderosos, bem pagos por quem podia, decidiam sempre a favor dos ricos.
Nesse contexto, o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o esplendor do culto disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. Amós denunciava essa situação com a rudeza simples e altiva e com a riqueza de imagens típica de um homem do campo.
Amós, após um curto período de pregação de no máximo alguns meses, acabou sendo expulso, mas antes rogou uma praga em cima do sacerdote Amasias, que presidia o culto em Betel, de acordo com a vontade do rei (7:10-17).
A palavra de Amós incomodava porque ele anunciava que o julgamento de Deus iria atingir não só as nações pagãs, mas também, e principalmente, o povo escolhido; este já se considerava salvo, mas na prática era pior do que os pagãos (1:3-2:16). Amós não se contentava em denunciar genericamente a injustiça social, ele denunciava especificamente:
·       Os ricos que acumulavam cada vez mais, para viverem em mansões e palácios (3:13-15; 6:1-7), criando um regime de opressão (3:10);
·       As mulheres ricas que, para viverem no luxo, estimulavam seus maridos a explorar os fracos (4:1-3);
·       Os que roubavam e exploravam e depois iam ao santuário orar, pagar dízimo, dar esmolas para aplacar a própria consciência (4:4-12; 5:21-27);
·       Os juízes que julgavam de acordo com o dinheiro que recebiam dos subornos (2:6-7; 4:1; 5:7.10-13);
·       Os comerciantes ladrões e os atravessadores sem escrúpulo que deixavam os pobres sem possibilidades de comprar e vender as mercadorias por preço justo (8:4-8).
·       Além disso, Amós denunciava a falsa segurança posta em ritos, nos quais a alma não se compromete (4:4-5; 5:4-5.21-27).
Em cinco visões, Amós anuncia o fim do Reino de Israel Setentrional, porque a situação era insustentável diante de Deus (os gafanhotos 7:1-3 e o fogo 7:4-6; o estanho 7:7-9 e o fim do verão 8:1-3; a visão do santuário 9:1-4).
Muitos especialistas de renome acreditam que, para se captar bem a mensagem de Amós, você deve começar a leitura do seu livro por essas cinco visões simbólicas. Estas visões parecem ser sinais que o profeta percebe no cotidiano da vida e simbolizam a situação da nação israelita. Elas vão fazendo nascer em Amós uma conscientização do que está acontecendo e acabam determinando sua decisão de deixar sua casa e seu trabalho e ir anunciar o castigo e a ruína do país. Falando de outro jeito: as visões cumprem, em Amós, o mesmo papel dos textos de vocação em Isaías, Jeremias ou Ezequiel. Amós via, certamente, coisas absolutamente comuns na região, como uma praga de gafanhotos, uma seca, um cesto de frutas maduras e coisas assim. Mas, como ele estava preocupado com o destino do país, "antenado" na situação do povo, estas coisas viravam símbolos do que estava acontecendo ou por acontecer com Israel.
Em 7:1-3, Amós conta que um dia viu uma praga de gafanhotos destruindo as plantações dos agricultores. E isto acontecia depois que o feno destinado ao pagamento do tributo ao palácio do rei já tinha sido cortado. Os gafanhotos, que têm alto poder de destruição, estavam piorando a situação dos agricultores, levando-os à fome. Pois estes já eram muito explorados pelo governo que, todo ano, tomava boa parte do que produziam. Amós, compadecido, apela a Iahweh, argumentando que os agricultores eram frágeis demais para sofrer tal ameaça de fome. E Iahweh, segundo o profeta, revoga o castigo.
Em 7:4-6, Amós vê um incêndio terrível que, de tão forte, consome até as fontes subterrâneas de água depois de ter acabado com os campos. Novamente Amós apela a Iahweh para que suspenda a praga, porque a ameaça agora é de grande seca, penalizando os fracos agricultores de sua época. Esta visão se parece muito, no seu jeito, com a dos gafanhotos. Elas formam um par. Mostram a realidade da roça na época de Amós, quando os pequenos agricultores sofrem muitas ameaças, sejam naturais, sejam da exploração que vinha lá de cima, do governo. Amós diz que Iahweh tem compaixão dos pequenos e retira os castigos que os ameaçam. Mas  os mecanismos sociais que provocam fome e sede no campo? Estes permanecem... Por isso a gente diz que estas duas visões são indicadores do nível de consciência profética de Amós no que se refere ao campo.
Em 7:7-9 Amós vê Iahweh verificando o alinhamento de um muro com um fio de prumo. O muro simboliza Israel que está torto e deverá ser demolido para ser realinhado, porque muro torto não tem conserto. Só derrubando. Desta vez Amós não intercede e a certeza do castigo torna-se mais forte.
Em 8:1-3, Amós vê um cesto de frutas maduras e isto simboliza para ele o fim de Israel. Cabe observar que em hebraico, língua que ele falava, "frutas maduras" é qayits, enquanto que "fim" é qets, ou seja, duas palavras com sons parecidos. Também desta vez Amós não pede nada a Iahweh. Esta visão forma um par com a visão de 7:7-9, porque estas duas chamam atenção para a gravidade da situação e para a proximidade do fim do Reino de Israel Setentrional, cabendo observar que não trazem uma cena rural, pois estas duas visões trazem cenas urbanas: sofrem com os castigos a cidade, os santuários, o palácio. Para este grupo não há intercessão de Amós. É uma realidade corrupta que não tem conserto.
Na quinta visão, Amós conta que, desta vez, é o próprio Iahweh quem atua e de modo dramático. De pé sobre o altar dos holocaustos - portanto, diante do edifício do santuário - ele bate nos capitéis, provocando um terremoto que destrói o santuário e mata as pessoas que estão ali dentro. Não há possibilidade de fuga, garante o texto. Esta visão é o ponto máximo deste ciclo. O próprio Iahweh volta-se contra o local no qual se lhe presta culto. É porque, na visão de Amós, o santuário (de Betel) traiu seu papel de conduzir o povo a Iahweh e à vida. Tornou-se um lugar de culto sem sentido, amparando e ocultando as múltiplas opressões e injustiças que se cometem no país.
O livro de Amós termina com uma mensagem de esperança (9:11-15). Tal esperança foi vislumbrada pelos judeus que, dois séculos depois, se encontravam na Babilônia e acrescentaram este trecho, conscientes de se terem purificado do seu pecado, no amargor do exílio.

RECAPITULANDO...
O PROFETA DA INJUSTIÇA SOCIAL
Amós é o contemporâneo mais velho de Miquéias e Oséias e foi o primeiro dos profetas escritores. Seu nome significa “aquele que leva cargas pesadas”. Amós era criador de gado e produtor de figos numa vila ao sul de Jerusalém chamada Tecoa. Amós recusou-se a ser chamado de profeta evidenciando a sua ruptura com as instituições formais de seu tempo: o palácio real e o templo (7:14-15).
Essa independência institucional permitiu a Amós proclamar a Palavra de Deus livremente sem nenhuma preocupação com a opinião pública ou interesses escusos. Nada mais se sabe sobre Amós. Alguns eruditos presumem que, após o pronunciamento de seus oráculos, tenha voltado para Tecoa, editado e redigido suas palavras tal como as temos hoje. Outros ainda afirmam que discípulos que o tenham seguido registraram seus oráculos.
Talvez o terremoto mencionado em 1:1 tenha despertado Amós a publicar seu texto uma vez que o verso 9:1 parece indicar um cumprimento parcial da profecia a Israel, isto é, a revelação do Senhor havia sido dada dois anos antes do terremoto citado e a publicação dos seus oráculos aconteceu em um momento posterior. Este terremoto provavelmente foi um acontecimento de grandes proporções, pois fora lembrado dois séculos depois como o “terremoto dos dias de Uzias” (Zc. 14:5).
O ministério de Amós aconteceu entre os anos de 760 a 750 a.C. durante o reinado de Jeroboão II no Reino do Norte (Israel) e de Uzias no Reino do Sul (Judá). Este foi um período muito próspero para Israel e Judá pois não havia a ameaça da Síria, que havia sido vencida pela Assíria décadas antes. Por sua vez a Assíria também passava por problemas internos em virtude dos conflitos com a Síria, e não apresentava mais perigo.
O resultado deste ambiente de estabilidade política proporcionou condições para que os reis Jeroboão II (Israel) e Uzias (Judá) expandissem novamente as fronteiras da Palestina chegando nos mesmos limites dos reis Davi e Salomão (2 Rs. 14:25). Isso possibilitou a retomada do comércio internacional e da agricultura proporcionando, desta forma, a estabilidade econômica (Am. 4:1-3).
Entretanto, a segurança política e econômica favoreceu apenas os comerciantes e a corte, pois o povo sustentava toda essa estrutura por meio da injustiça social e escravidão. O resultado disso foi a miséria do povo (2 Rs. 14:26; Am. 2:6; 8:6).
Ironicamente, a religiosidade era volumosa (Am. 4:4-5; 5:21-23), porém tornou-se mecânica e distante da presença real de Javé. Amós, tal qual Isaías, enxergou além da superficialidade econômica e social que beneficiava apenas alguns poucos em detrimento da pobreza de muitos (Is. 3:13-15). Da mesma forma, o profeta Oséias, 10 anos depois, condenaria de maneira enérgica estes mesmos pecados.
Para Amós, a prosperidade agrícola serviu apenas para comparar Israel com um cesto de frutas maduras, prontas para a execução do julgamento divino (Am. 8:2-3).
Estrutura de Amós
O livro do profeta Amós pode ser estruturado da seguinte maneira:
·         Apresentação do tema – 1:1-2
·         Os sete oráculos de julgamento contra as nações – 1:3 – 2:16
o    Damasco – 1:3-5
o    Gaza – 1:6-8
o    Tiro – 1:9-10
o    Edom – 1:11-12
o    Amon – 1:13-15
o    Moabe – 2:1-3
o    Judá – 2:4-5
o    Israel – 2:6-16
·         Oráculos de julgamento contra Israel – 3:1 – 6:14
o    Acusação – 3:1; 4:1; 5:1
o    Ameaça – 3:11; 4:12; 5:16
o    O conceito errado do Dia do Senhor – 5;18-27
o    A falsa segurança material – 6:1-14
·         As visões de julgamento de Israel – 7:1 – 9:10
o    Primeira visão: a praga de gafanhotos – 7:1-3
o    Segunda visão: o fogo devorador – 7:4-6
o    Terceira visão: o prumo de Javé – 7:7-9
o    O desafio de Amazias a Amós – 7:10-17
o    Quarta visão: o cesto de frutas maduras – 8:1-3
o    Interlúdio profético: mais oráculos de julgamento – 8:4-14
o    Quinta visão: O Senhor junto ao altar – 9:1-10
·         Promessas de restauração – 9:11-15
o    Restauração do reino de Davi – 9:11-12
o    Restauração material – 9:13-15
Embora fosse um homem do campo, o profeta Amós possuía habilidade literária. Podemos perceber isso pelo uso que o profeta faz de ironias em sua retórica e pela fórmula x, x + 1 nos oráculos contra as nações (Am. 1:3,6,9,11). Este padrão pode indicar que cada nação havia pecado mais do que o suficiente para a execução do juízo divino, isto é, a misericórdia do Senhor fora demonstrada e não se tratava de uma ação arbitrária de Javé. Todas as acusações contra as nações, incluindo Israel (Am. 2:6), eram baseadas em crimes contra a humanidade. Apenas Judá foi acusada de rejeitar a Lei e desobedecer aos decretos da Aliança.
Outra característica literária de Amós são seus oráculos visionários. O profeta realmente havia visto as palavras que deixou registradas. Além disso sua mensagem era viva e vibrante, pois Amós falava daquilo com o qual estava acostumado.
Entretanto Amós também se utilizou da literatura lírica (Am. 5:1-2) e de doxologias (glorificação de Deus) (Am. 4:13; 5:8-9; 9:5-6) mostrando sua aptidão poética e musical. Esses trechos podem ainda ser canções da época.
Fórmulas de juramento (O Senhor, o soberano, jurou – 4:2), de proclamação (Ouçam – 4:1) e revelação (o Senhor, o soberano, me mostrou – 7:1) são frequentemente usadas e padronizadas.
O livro é composto por quatro seções fundamentais:
Oito oráculos contra as nações – 1:3 a 2:16
Cinco profecias – 3 a 6
Cinco visões proféticas – 7:1 a 9:10
Restauração de Israel – 9:11-15
A dinâmica do livro é dada pelos oráculos contra as nações e Israel provavelmente se surpreende por ouvir seu nome entre os culpados. A surpresa aumenta nos capítulos seguintes pois o tom é mudado de ameaça para a certeza do juízo divino (Am. 6:7).
Esses oráculos condenatórios foram dirigidos para a corte real (governo), a nobreza (empresários) e para o sacerdócio (religiosos). Cada oráculo é composto das características comuns da denúncia profética:
Fórmula do mensageiro de Javé: “Assim diz o Senhor”
Apontamento do pecado
Transição: “por isso”, “eis que”, “portanto”
Ameaças de julgamento
Anúncio da punição
Neste caso específico, Amós se dedicou a destacar os crimes propriamente ditos, com detalhes impressionantes. A série de sentenças estão em: Am. 2:13-16; 3:12-15; 4:12; 5:16-17; 6:7-11.
A partir do capítulo sete, com as visões, a acusação sai de cena para a ênfase no julgamento. Agora o livro passa a descrever longos julgamentos com a descrição detalhada dos pecados para justificar a punição inevitável.
Como toda palavra profética, Amós termina seus oráculos com salvação e restauração. Entretanto, a salvação não substituiria a punição, mas viria após a punição. O reino de Davi seria restaurado como cumprimento da promessa a Davi (2 Sm. 7; Am. 9:11-12).
Propósito e conteúdo
O livro de Amós aborda os seguintes temas:
Javé cobra as nações sobre sua política social
A justiça social é resultado da verdadeira adoração
O julgamento de Javé também atingirá Israel
Javé restaurará um remanescente de Israel
O quadro de idolatria e injustiça social levaram Amós a sair de Judá, Reino do Sul, para Israel, Reino do Norte. O resumo de sua mensagem está registrado no verso 8:2.
Amós transmite seus oráculos de forma lógica e ordenada, por meio de quatro mensagens, fundamentadas no julgamento e exílio de Israel, conforme abaixo:
Primeira mensagem (2:6-16): O pecado de Israel é apontado e a consequência será a sua destruição como cumprimento da desobediência à Aliança. Israel achava que o Senhor não puniria seu povo; logo, Amós desmistificou esta visão que os israelitas tinham de Deus.
Segunda mensagem (3:1 – 6:14): A injustiça social e a falsidade religiosa são condenadas. Amós apela ao povo para que se arrependam e retornem aos padrões da Aliança. A ideia do Dia do Senhor como um dia de bênção também é corrigida (Am. 5:18-20).
Terceira mensagem (7:1 – 9:4): Para confirmar os oráculos do profeta, são apresentadas cinco visões que destacam a ira e o julgamento do Senhor contra Israel e a certeza de sua destruição.
Quarta mensagem (9:5-15): Término do ministério de Amós e a esperança da restauração de Israel como prova do amor do Senhor é anunciada. O julgamento não duraria para sempre.
Justiça Social
Amós resgatou as estipulações da Aliança que incluía o aspecto ético em relação do próximo como parte do amor a Deus. Por isso ele apela em favor de todos os pobres, injustiçados e oprimidos pelos ricos, comerciantes desonestos, líderes corruptos, juízes sem escrúpulos e falsos sacerdotes (4:1; 6:1,4; 7:8-9).
Amós fornece diretivas essenciais para a ação social da Igreja na comunidade onde está inserida. De acordo com Amós, o povo escolhido de Deus deve primar pela justiça social como um aspecto essencial da Aliança.
Ensino sobre serviço e ação social em Amós
Serviço social
Ação social
Alivio da necessidade humana (5:12)
Remoção da necessidade humana (8:4-6)
Atividade de filantropia (4:5; 6:4-7)
Atividade política e econômica (5:10,11,15)
Ajuda individual e familiar (4:1; 5:6-7)
Transformação das estruturas da sociedade (4:4-5; 7:7-9)
Obras de misericórdia (4:1; 6:4-7)
Busca pela justiça (2:6-8; 5:7,24; 6:12)
Não podemos apenas associar Amós com seu clamor pela justiça social. O profeta clama por justiça a partir do seu elevado senso ético da Aliança de Javé com seu povo, que passava pelo amor ao próximo.
Para Amós, a injustiça social era reflexo da falta de importância que os israelitas deram às estipulações da Aliança, e, antes de não amarem ao próximo, na realidade, não amavam a Deus em primeiro lugar.
Os crimes contra a humanidade, que foram condenados em todas as nações eram pecado contra o próprio Criador de todos os seres humanos.





quarta-feira, 8 de junho de 2016

J O E L

O    L I V R O    D O    P R O F E T A    J O E L

                 O Profeta Joel é considerado um dos mais antigos profetas, cujos escritos chegaram até nós. Talvez tenha conhecido na juventude, tanto Elias quanto a Eliseu. Sua história pessoal está narrada num versículo: “Palavra do Senhor, que foi dirigida a Joel, filho de Petuel” (1.1). Seu nome significa: “Jeová é meu Deus”.  Alguns historiadores descrevem que seu ministério como profeta foi para as Tribos de Judá, em 835AC, enquanto que Amós neste quase mesmo período profetizava para as Tribos do Norte, em Israel.  Este é um livro profético que trata do Grande Dia do Senhor e seu autor é conhecido como o Profeta do Pentecostes. Mas outros historiadores o relatam que Joel pode ter vivido nos tempos pós-exílio.


A ADVERTÊNCIA

                  A terra de Israel acabava de ser visitada por uma praga de gafanhotos que devoravam toda a erva, deixando em seu rasto somente desolação. Joel cria fosse o juízo de Deus, por causa do pecado do seu povo. Joel fala a Judá fazendo uso do presente juízo, chamando o povo ao arrependimento. Quer poupá-los de juízos ainda maiores, nas mãos dos exércitos hostis. O gafanhoto era tipo e precursor da devastação que eles trariam. (1.2, 5, 9 ,20).
                  Diante destes fatos o Profeta Joel conclama o povo para um jejum (1.13), convida o povo a considerar a causa dessa calamidade. Devem sinceramente arrepender-se, se quiserem ser poupados de outro julgamento, (2.12-17). Em desespero todos estavam prontos a qualquer um que lhes pudesse explicar a desgraça acontecida e naquela hora, e em sua extremidade, os homens se voltariam para Deus.


O JEJUM E A PROMESSA

                  Ao soar da trombeta de chifre de carneiro, conclamando o povo para um grande jejum, lá estão todos os velhos e moços, noivos e noivas, os sacerdotes vestindo panos pretos de saco, se curvam ao solo e clamam a Deus dentro do santuário: “POUPA O TEU POVO, Ó SENHOR”, e o Profeta Diz: “RASGAI O VOSSO CORAÇÃO E NÃO AS VOSSAS VESTES, E CONVERTEI-VOS AO SENHOR VOSSO DEUS” (2.13).  Era um acontecimento para fazer o povo retornar a Deus.
                  Os gafanhotos transformaram o Éden em deserto desolador, cobriam o céu e obscureceram o sol como eclipse, que se estendiam por quilômetros sobre a terra e em poucos minutos toda folha e toda haste desapareciam. (2.3-3, 1.6-7).
                  Uma terra devastada por gafanhotos leva anos para se recuperar, seu vôo é ouvido a quilômetros de distancia, como o crepitar de um incêndio. A terra fica devastada como se fora pelo fogo, (1.17-20, 2.5, 2.3).
                  Deus então promete restituir seu povo pelos anos que foram consumidos pelo gafanhoto, (2.25).
                  O Profeta Joel assegura ao povo que Deus verdadeiramente derramará tantas bênçãos temporais, como espirituais, e mandará também libertação do céu “E acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne: vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias”  (2.28-29). Eis a profecia do Pentecoste.
                  Libertação espiritual é a grande promessa central do Livro de Joel. Outros profetas predisseram pormenores a respeito da vida do Senhor, e até mesmo do seu reino futuro, mas a Joel coube o privilégio de predizer que Ele iria derramar o seu Espírito por sobre toda a carne, e ele diz que essa bênção emanará de Jerusalém, fato acontecido no livro de Atos dos Apóstolos (Joel 2.32, 3.18 ; Atos 2.16). Este profeta de Deus foi o primeiro a profetizar o derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne e sua mensagem é para todos nós nos dias de hoje.


O DIA DO SENHOR E AS BÊNÇÃOS FUTURAS

                Há uma lição para nós hoje. A Igreja se encontra em estado de desolação, Tem sido assolada por muitos inimigos espirituais, bem descritos em Joel 1.4, há fome e sede por todos os lados. O clamor de hoje é dirigido a todos os cristãos, para que se humilhem no pó perante o Senhor, com verdadeiro arrependimento de coração, para que sua promessa se cumpra em toda a Igreja.
                 “O Dia do Senhor”, de que este livro relata, fala cinco vezes referindo-se ao juízo. Fala de uma série de juízos: da presente praga de gafanhotos, dos exércitos invasores e do Dia Final do Senhor, o período que medeia entre a volta do senhor em Glória e os novos céus e a nova terra, conforme descritos em Isaias 2.17-20, 3.7-8, Mal.4.5, I Cor.5.5, I Tess.5.2, II Pedro 3.10 e entre outras passagens bíblicas.
                   O Profeta Joel também descreve o retorno de Judá do cativeiro da Babilônia, como também a congregação dos judeus vindos das nações gentias. Fala também do julgamento das nações após a batalha do Armagedon ( 3.2-7).
Depois de Israel ser restaurado, e as nações da terra julgadas, será então estabelecido o reino eterno (3.1-2, 20). A Palestina, terra da promessa, será novamente o centro do poder e o lugar onde se congregarão todas as nações para o julgamento, onde Cristo retornará para estabelecer o seu domínio como soberano na terra.


O     L I V R O    D E    J O E L

O Livro de Joel faz parte do Antigo Testamento, vem depois do Livro de Oseias e antes do Livro de Amós. Segundo a tradição, foi escrito pelo profeta Joel.
Joel,
o profeta do avivamento
Joel 2: 28-32
Alguns sustentam que foi escrito no final da era monárquica, mas maioria dos exegetas sustenta que foi escrito após o Exílio na Babilônia e após a reconstrução do Templo, ou seja, aproximadamente em 400 AC, pois o livro não se refere a nenhum rei, nem ao Exílio.
A mensagem do livro fala sobre o "julgamento que Deus fará contra os inimigos de Israel e, de uma perspectiva escatológica, a vitória final do povo de Deus".
As dúvidas sobre a época em que o profeta Joel viveu dificultam a interpretação do que ele escreveu.
Pode-se dividir o livro em duas partes:
Os dois primeiros capítulos narram uma terrível invasão de gafanhotos que devasta a plantação do país. Diante disso, Joel pede a participação de todos (profetas, sacerdotes e povo), numa grande manifestação de penitência e jejum, para suplicar a Deus que afaste a catástrofe;
Esta liturgia penitencial permite caracterizar Joel como um profeta cultual, ligado ao serviço do Templo;
Deus mostra a sua misericórdia e anuncia a libertação da praga e as bênçãos para uma nova plantação. Como o profeta compara esses gafanhotos a um exército, talvez se possa pensar que ele esteja falando de uma invasão inimiga;
Os dois últimos capítulos descrevem o julgamento de Deus sobre as nações e a vitória final;
A efusão do espírito profético sobre todo o povo na era escatológica (3:1-5) responde ao anseio de Moisés em Nm 11:29.
Parece que a primeira parte não tem nada a ver com a segunda. Mas, uma expressão une o livro todo: o Dia de Javé, isto é, o Juízo final. Então, o que na primeira parte eram gafanhotos ou exército inimigo, na segunda se transforma em exército de Deus; a praga se torna apenas uma comparação para exemplificar o Grande Dia em que a humanidade prestará contas a Deus. Assim como afastou ele os gafanhotos, também a misericórdia de Deus, alcançada pela penitência e jejum, transforma o julgamento em dia de libertação e salvação: arrasada a plantação, ela surge nova e viçosa. Desse modo, uma praga de gafanhotos observada atentamente serviu para que Joel anunciasse o Juízo final.
A passagem mais destacada de Joel é o Capítulo 3 (ou versículos 28 a 32 do Capítulo 2, na versão Almeida) que é citado por Simão Pedro no Sermão de Pentecostes em Atos dos Apóstolos 2:17-21. Por isso, Joel é também chamado o profeta de Pentecostes, sendo também considerado o profeta da Penitência, por causa da primeira parte do livro.


INTRODUÇÃO AO LIVRO DE JOEL – Mas que dia!

Sabe-se pouco sobre a vida pessoal de Joel além do nome de seu pai, Petuel. Não é mencionado como profeta em nenhum outro livro do AT, embora seja citado como um pregador vigoroso e atrevido. Seu interesse por Jerusalém e pelas cerimônias do templo (1:9; 1:13ss; 2:14-17,32) nos levam à conclusão de que ele era um profeta do templo, ou ao menos valorizava bastante seus rituais.
A visão de Joel sobre a praga de gafanhotos é uma das mais conhecidas profecias bíblicas, gerando um amplo leque de interpretações, muitas vezes equivocadas. Sua mensagem sobre o derramamento do Espírito sobre todos os povos foi o fundamento da mensagem de Pedro no dia de Pentecostes, alavancando o nascimento da Igreja Cristã.
Um dos maiores problemas com o livro de Joel é situá-lo historicamente, pois não há dados claros na redação do texto que nos forneçam uma pista para sua datação. Houve propostas para datá-lo tanto no século IX a.C. como no século II a.C. Embora a mensagem do livro não sofra nenhuma alteração em virtude do desconhecimento de sua produção, quando a data de composição é conhecida, alguns detalhes de seus oráculos são elucidados. Com base nas evidências internas do texto do livro é possível chegar a algumas conclusões em favor de uma data imediatamente, posterior ao exílio, isto é, as datas muito distantes do período exílico ficam descartadas neste estudo.


ARGUMENTOS APRESENTADOS NO LIVRO
Basicamente essa posição é sustentada pelos seguintes argumentos:
·       A falta da menção de um rei, e seu endereçamento aos anciãos;
·       O uso intenso da expressão “Dia do Senhor”, caracteristicamente
·       A destruição de Judá e a sociedade destruída apontam para um exílio recente
·       Citação das atividades no templo, reconstruído em 515 a.C.
·       A falta de menção à Assíria ou Babilônia sugerem que estas nações já não estavam atuando mais na política internacional do Oriente Médio, como aconteceu no pós-exílio.
Joel é um profeta clássico, isto é, deixou seus oráculos escritos. Este estilo de profecia iniciou-se no século VIII a.C. Portanto, uma data anterior a este período fica excluída.
A adoração a baal não é citada, este era um tema muito comum no pré-exílio, mas não no pós-exílio.
A referência à destruição de Edom (3:19) e a descrição do sacerdócio favorecem uma datação pós-exílica entre o final do século VI e início do V.
O estilo literário de Joel é apoiado na literatura profética pré-exílica em virtude do uso que faz dos profetas Amós, Isaías e Ezequiel. O quadro abaixo mostra a dependência de Joel destes profetas:

Texto em Joel
Paralelo pré-exílico
1:15
Is. 13:6
2:3
Is. 51:3; Ez. 36:35
2:10
Is. 13:10
3:10
Is. 2:4; Mq. 4:3
3:16
Am. 1:2; Is. 13:13
3:17
Ez. 36:11; Is. 52:1
3:18
Am. 9:13

É difícil tratar sobre o contexto histórico no qual Joel se encontra devido à dificuldade quanto à sua datação, conforme abordado acima. Se a datação pós-exílica for a correta, ainda assim seria trabalhoso definir o livro no período dos profetas Ageu e Zacarias sob a liderança de Zorobabel ou no período do profeta Zacarias sob a liderança de Esdras e Neemias.
Podemos definir uma data entre estes períodos, quando o templo já estava com seus rituais em operação e Edom ainda não havia sido destruída. Esta teoria coloca o livro no período de Ester, durante o reinado de Xerxes, quando os persas tiveram suas primeiras batalhas com os gregos.


ESTRUTURA DE JOEL
O livro de Joel segue o esboço abaixo:
Introdução –  1:1
·       A praga de gafanhotos e a crise
·       A descrição da praga – 1:2-12
·       O julgamento representado pela praga – 1:15-20
·       A iminência do Dia do Senhor
·       A descrição do exército de gafanhotos – 2:1-11
·       Um apelo ao arrependimento – 2:12-17
·       Restauração após a praga – 2:18-27
·       O dia do Senhor
·       A descrição do dia do Senhor – 2:28-32
·       O julgamento dos povos – 3:1-17
·       A restauração de Judá – 3:18-20
·       O livro de Joel, de acordo com seus oráculos, está dividido em duas partes:
·       A praga de gafanhotos e o dia do Senhor (1:1 – 2:17)
·       A vitória escatológica e o dia do Senhor (2:18- 3:21)
Na primeira parte quem fala é Joel, na segunda, o Senhor. Diferentemente dos profetas pré-exílicos, que vislumbravam um julgamento futuro, Joel interpretou a crise atual como um juízo divino contra o povo. Um desastre dessa magnitude significava, para Joel, que Javé estava acertando as contas com as nações. Usando este episódio de crise, Joel chamou o povo à ação e reflexão (Capítulo 1), dizendo que a situação se agravaria (Capítulo 2).
Joel aproveita a situação de juízo para instruir o povo de acordo com o ritual adequado (2:13-17) demonstrando seu arrependimento. Este procedimento é oposto à mensagem dos profetas pré-exílicos, que se colocaram contra qualquer ritualismo e pediram um comportamento mais ético para o povo. Outro ponto que difere o estilo de Joel com os profetas pré-exílicos é que ele não menciona explicitamente os pecados do povo. Para Joel, a urgência estava na solução da crise, e não nas causas.
O Senhor demonstra uma resposta favorável ao povo após seu arrependimento e restaura a terra, diferente do primeiro ciclo, onde o julgamento destruíra a nação. O ponto em comum entre o primeiro ciclo de julgamento (1:2 a 2:27) e o segundo ciclo de julgamento (2:28 a 3:20) é o Dia do Senhor. Depois de comparar o Dia do Senhor com o derramamento do Espírito e com o livramento Joel continua com as abordagens ao juízo e restauração. Entretanto, neste ponto as nações são atingidas, não mais Judá.


PROPÓSITO E CONTEÚDO
O livro de Joel trata dos seguintes assuntos:
O dia do Senhor e sua analogia com a praga de gafanhotos
O derramamento do Espírito do Senhor como introdução ao período do julgamento
O foco principal de Joel estava relacionado ao Dia do Senhor, por isso entendeu a praga de gafanhotos como o seu início, antecipando o agravamento da situação de crise na qual encontrava-se Judá. Em razão disso, Joel conclama o povo ao arrependimento; que foi atendido. Logo, Javé mostra sua compaixão e o renovo é anunciado (2:18ss).
No segundo ciclo do Dia do Senhor as nações são alvo do julgamento divino com a restauração socioeconômica de Judá, pois os hebreus enxergavam nos atos de livramento de Javé sua disposição em realizar uma redenção completa, pois, após o livramento da praga de gafanhotos (2:18-27), Joel anuncia o plano divino do livramento de Deus para o povo da Aliança nos últimos tempos (2:28 – 3:31).
Joel deixa transparecer em seus oráculos que Javé tem domínio pleno sobre a natureza, pois em nenhum momento ele atribui a praga de gafanhotos ao acaso ou alguma outra coisa; antes, os gafanhotos eram o exército do Senhor (2:11), enviado e levado por ele (2:20). Portanto para Joel, uma cosmovisão dualista era improvável, em virtude do senhorio de Javé sobre todas as coisas.


A PRAGA DE GAFANHOTOS
Desde o seu estabelecimento em Canaã, Israel tornara-se uma nação agrícola. Por isso, qualquer praga, ou desastre natural que atingisse as plantações teria consequências devastadoras para a sobrevivência do povo. Por isso, qualquer coisa que afetasse a agricultura seria considerada como uma espécie de juízo divino, uma vez que a vida estaria ameaçada.
Para os povos no Oriente Médio todos os desastres naturais estavam associados ao julgamento divino, por isso era importante saber quem os havia causado, qual era o motivo da ira dessa divindade e como poderia ser acalmada. Não era problema para os hebreus descobrir o causador da ira, mas certamente teriam problemas em determinar as respostas para as outras duas perguntas.
Joel responde a estas questões de uma forma inusitada, pois, em vez de associar a calamidade dos gafanhotos à uma desobediência específica, ele relacionou a crise agrícola com um anúncio para o dia do Senhor. Neste dia o justo seria absolvido e os ímpios seriam punidos. Restava ao povo da Aliança viver sob a misericórdia do Senhor, uma vez que Deus não permitia qualquer tipo de manipulação de sua vontade.
O gafanhoto tem recebido diversas interpretações em Joel, as principais estão relacionadas abaixo:
Exércitos estrangeiros: alguns cristãos seguem a tradição judaica ao comparar os gafanhotos com exércitos estrangeiros. Neste caso, os gafanhotos são uma metáfora para desastre que se abateu sobre Judá. Esta interpretação é pouco provável, pois os próprios gafanhotos são comparados com exércitos, por isso a comparação não se aplica.
Criaturas não terrenas: outros tendem a interpretar os gafanhotos como figuras de linguagem do estilo apocalíptico. Estas criaturas trarão as terríveis consequências do dia do Senhor (Ap. 9:3, 7-11). Entretanto, os usos constantes dos verbos no passado sugerem que Joel tenha sido testemunha ocular deste episódio, ou seja, não está simplesmente anunciando o futuro, mas narrando um julgamento que ocorrera.
Abordagem literal: os gafanhotos foram realmente insetos que devastaram as plantações dos judeus. A destruição literal é realçada pela descrição que Joel faz dos gafanhotos a partir de 1:4. A ênfase não está nos vários tipos de gafanhotos, pois não é intensão de Joel fazer um tratado biológico, mas sim demonstrar a gravidade da destruição que acontecera. Esta destruição foi tão terrível que Joel não pôde evitar uma comparação com o terrível dia do Senhor que se aproximava.


O PENTECOSTES
O oráculo de Joel acerca do derramamento do Espírito do Senhor teve um cumprimento muito além dos ouvintes originais. O apóstolo Pedro não hesita em afirmar este cumprimento no dia de Pentecostes, na origem da igreja cristã. Na verdade, este cumprimento vai ao encontro do antigo desejo de Moisés descrito em Números 11:29: “Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o Seu Espírito”.
Quando o Espírito Santo encheu todos os presentes na reunião no cenáculo, Pedro explicou que o acontecimento cumpria a profecia de Joel, descrita em 2:28-32. Os aspectos do derramamento do Espírito e a invocação do Senhor para a salvação foram suficientes para Pedro estabelecer a relação, embora alguns aspectos como sangue, fogo e nuvens de fumaça não tenham se concretizado naquele dia. Neste episódio a Igreja é alistada para anunciar a mensagem escatológica do dia do Senhor que vem chegando.

Deus habitará em Sião. Joel 3.17.